Resiliência (Shackleton)

Os dias de exploração da Antártida começaram há cerca de 125 anos – uma história recente de descoberta, desligada de interesses comerciais ou de ambições de conquista. Nomes famosos que ficaram na história, como Amundsen, Scott ou Shackleton, mas também nomes que se vêem nos mapas da Península – Bransfield, Bellinghausen, LeMaire, entre outros.

A história de Ernest Shackleton foi contada em livro pelo próprio (South – The Imperial Trans-Antarctic Expedition 1914-17, publicado em 1919), por outros autores da época e por autores contemporâneos (Ranulph Fiennes escreveu uma excelente biografia de Shackleton). Um homem resiliente e duro, celebrado como um herói. Sem nunca baixar os braços, sem nunca desistir, Shackleton é a personificação do verdadeiro herói Antártico – concretizando uma epopeia digna de filme (Disney 2022 – Endurance). Com relatos tão reais, na primeira pessoa, não foi difícil apaixonar-me por esta epopeia mágica que me trouxe, através de longos e sinuosos passos, reuniões, desafios e entrevistas, ao sétimo continente.

Entre 1901 e 1904 Shackleton participa na Discovery Expedition, sob comando de outro herói Britânico (Captain Robert Falcon Scott). Regressando a casa mais cedo do que previsto por doença, rapidamente planeia a próxima exexpedição. Sob seu comando, e em 1917 estabelece um recorde de proximidade ao Pólo Sul – ficou a 97 milhas, ao atravessar 88º22’ S. Em 1911 o Pólo Sul era finalmente alcançado por uma equipa norueguesa (Amundsen), eliminando mais uma possibilidade de conquista para Shackleton. Sobrava apenas uma hipótese – ser o primeiro a atravessar o continente, passando pelo Pólo, começando a Norte (mar de Weddel)  para chegar a Sul. Em 1914 parte de Inglaterra a bordo do Endurance, numa expedição com o mesmo nome, enviando um navio para Sul, através da Australia, e preparando-se para atravessar o continente a pé, com o auxílio de trenós puxados por cães.

Preparado para conquistar o último continente, Shackleton inclui na sua equipa 28 pessoas, cientistas, biólogos, marinheiros, geólogos e um fotógrafo (Frank Hurley filmou e fotografou a expedição). Ao chegar ao mar de Weddel encontraram gelo intenso e ancoraram, na esperança de que o verão lhes permitisse aproximarem-se do continente. Dispostos a esperar até ao próximo verão, foi em Outubro seguinte (10 meses no gelo) que decidiram abandonar o navio, e que o viram ser destruído por um mar gelado que não deu tréguas aos 28 homens que resistiram durante um inverno duro, terrívelvel, de improvável sobrevivência. 20 meses depois, em Abril, o Endurance estava afundado e a decisão foi de rumar a Norte nos barcos salva vida. Sem mantimentos ou equipamento adequado chegam a Elephant Island 497 dias depois de partirem de Inglaterra. 5 homens esgotados partem em direção a Geórgia do Sul, onde uma estação de caça a baleias estava ativa e onde, quase 2 anos antes, a equipa tinha angariado os últimos mantimentos.

Em Agosto de 1916, 24 meses depois de terem partido, a tripulação de 28 pessoas estão finalmente reunidos novamente, abordo de um pequeno navio chileno (Yelcho). Ao chegar a Geórgia do Sul pelo lado errado, Shackleton e os 5 companheiros escalaram a encosta, desceram a encosta de um vulcão activo, encontraram a estação baleeira, e completaram 3 expedições para socorrer os restantes 23, até finalmente conseguirem fazê-lo à quarta tentativa.

Foi por nunca ter desistido dos seus homens, que Ernest Shackleton ganhou fama, resiliente e sem nunca baixar os braços, não desistiu de encontrar a sua equipa e de os trazer, sãos e salvos, de volta a casa. Tentaria novamente em 1921 em nova expedição a qual se juntaram antigos companheiros. Seria mais uma vez traído, desta vez pelo seu coração que parou dias depois de chegar a Geórgia do Sul, onde se encontra ainda, virado a Sul, com vista para onde sempre quis chegar.

(imagem - Scott Polar Research Institute - Cambridge)

Próximo
Próximo

Distâncias e Sons