Distâncias e Sons
O nosso cais é herança do tempo em que os baleeiros ocuparam a ilha (1921). A Rocha granítica parece ter sido dinamitada de forma a permitir que barcos acostassem e tripulantes saltassem para a costa. Como amarração, correntes ferrugentas à volta da mesma rocha, ainda hoje usadas para amarrar pequenas embarcações. Deste cais, a ocidente, até ao fim da baía vai pouco mais de 1 milha náutica (1.8 kms). Deste cais, longe do Glaciar, do qual vemos uma linha horizontal de rocha, e uma parede vertiginosa de gelo, consigo ver baleias, assim mesmo, a olho nú, ao longe. Vejo a respiração inconfundível, vejo um risco preto com uma pequena barbatana dorsal, esperando ansiosamente o momento em que mergulha e revela a sua cauda num espectáculo que jamais me cansarei de ver.
Estas baleias, maioritariamente baleias de bossa e baleias comum, visitam-nos diariamente. Se o olhar no horizonte as encontra muitas vezes, frequentemente é o ruído da respiração que nos alerta para a sua presença. Em dias de vento fraco, os sons viajam nitidamente, e sobrepõem-se aos ruídos terrestres (pinguins a urrar, gelo crepitantemente a derreter). Assim encontro as baleias que se aventuram por mais perto e que descem a baía em perseguição de krill e peixe ou que a atravessam para chegar ao seu grupo - grupos que se anunciam a milhas de distância uns dos outros, através de cantos exclusivos seus, partilhados com outros sortudos que conseguem suportar a água gelada e suster a respiração por tempo suficiente.
A bordo de alguns navios viajam equipas de cientistas – uma obrigação promovida pelo Tratado da Antartida, através da Associação de Operadores Turísticos da Antartica. Com embarcações rápidas e hidrofonos à disposição, uma das equipas estuda a população visitante de baleias na zona, através dos sons registados debaixo de água. Comparando os dados com épocas anteriores, conseguem concluir acerca do tráfego, frequência, tamanho dos grupos, entre outros.
A percepção de espaço altera a nossa forma de ver o mundo. Os 1800 metros que me separam das baleias que mergulham ao fundo da baía, são os mesmos 1800 metros de algumas avenidas na Lisboa onde cresci, ou na vila ondo moro agora – uma distância familiar. Mas aqui, sem humidade e sem poluição, sem ruído e distracções consigo ver tudo, e os 1800 metros são mesmo aqui ao lado.