Regresso
A viagem de regresso faz-se por trajectos novos, por dois locais que fazem parte da minha lista de sonho, e por outros dois cujos nomes estou ainda a tentar memorizar.
A bordo de um navio de passageiros encontro o contraste entre a minha vida dos últimos quatro meses e o comforto e luxo. Por ordem de importância, tenho à minha disposição banho/chuveiro a qualquer hora, no meu quarto. Três refeições por dia, sem ter que cozinhar ou lavar a loiça. Cerveja fria a copo, acompanhada de uma vista deslumbrante.
Ao fim de uma noite chegamos a Paradise Bay – o nome diz tudo. Um dos sítios mais visitados na península, albergando duas bases (Brown da Argentina e Videla do Chile) e recantos escondidos por falésias e encostas áridas. Um freio de cobre é visível à distância, verde e oxidado, lembrando-nos que a Antártida é rica não só em vida mas também em minerais. A baía é rica em plankton, fazendo a água mais esverdeada do que azul, onde abundam krill e diversas espécies de peixe, dos quais se alimentam baleias de bossa. As humpback whales estão por todo o lado – saio no barco da ciencia, com equipamento que vamos usar para medir os níveis de plankton, salinidade, e temperatura – estas medições e dados serão mais tarde processados, seguindo as amostras para congelação para que possam ser estudadas no futuro.
A caminho de Nekko Harbour, do outro lado da baía, passamos por Gonzales Videla – a base chilena cujo comandante se correspondeu comigo – fica para a próxima o encontro e jantar. Tinhamos combinado uma visita em grupo, um assado gaúcho e uma troca de lembranças. Deixamos para trás a baia do paraiso, e seguimos para norte, para Deception Island onde visitaremos a famosa whaler’s bay. Antes disso uma visita rápida a Chiriguano Bay. Os sítios novos com nomes compridos começam a confundir-se, e a proximidade da passagem de Drake, anunciando o fim da viagem, faz-me antecipar problemas com as linhas aéreas Argentinas e a greve aeroportuária anunciada.
O regresso faz-se de duas formas. Fisicamente, em navios, aviões e aeroportos, a caminho de abraços e sorrisos. Memorialmente, regressando de hábitos novos que vamos perder, de momentos preciosos que vamos guardar, de milhares de encontros e de emoções novas. O regresso físico demora 8 dias, 2 a voar, 6 a navegar. O outro vai demorar anos, décadas mesmo – sigo determinado em esticar o mais possível esse regresso, ao mesmo tempo em que apresso o outro, o dos 8 dias, querendo muito reclamar aqueles abraços e sorrisos que me aguardam.