Aves (da indiferença ao fascínio)
Apesar de ter visitado parques e santuários de aves no passado, foi preciso viajar 10.000 milhas para perceber e descobrir o fascínio pela passarada. É claro que gosto de ver as andorinhas que trazem a primavera e regressam aos seus ninhos, ou as aves de rapina, predadoras, tão comuns na zona onde moro. Tal como as perdizes e faisões que distraídamente atravessam as estradas, fazendo-me lembrar que os caçadores andam com certeza por perto.
Na viagem para Sul, de Ushuaia para Port Lockroy, com pouco que fazer nos dias de travessia do Drake, entretenho-me a procurar pássaros. No deck aberto do navio, protegido do frio e vento, demasiado alto para sentir o salpico das ondas, avisto as primeiras aves. A ave prémio por aqui é o Wandering Albatross. Com uma população total de menos de 30 mil individuos, e uma envergadura superior a 3 metros, a maior ave do mundo consegue voar durante um ano sem ir a terra. Passam 3 dias e vemos outros albatrozes, espécies diferentes, algumas curiosas, outras evasivas. Percebo que somos seguidos de perto por 3 pássaros que parecem simplesmente seguir-nos noite e dia. Esta companhia e entretenimento prepara-me mal para os encontros que se seguiriam.
Na ilha no fim do mundo, a cadeia alimentar gira a volta dos pinguins. Temos visitas diárias de Skuas, predadoras de ovos e de juvenis, Sheathbills residentes que se alimentam de krill digerido, mas também de ovos e de quaisquer restos não aproveitados por outros.
Alheios e inertes aos movimentos dos pinguins, as Blue Eyed Shags procuram comida no mar. Fazem voos razantes e aterram em pontos estrategicos. Em rochas ou na praia, ficam a espera que outras se juntem para partir em pequenos bandos, em excursões até longe, regressando sempre pelo mesmo caminho.
Quando inevitavelmente os pequenos pinguins sucumbem ao clima, a quedas ou a qualquer outra causa final, são os Giant Pettrels que aparecem. Como um nome inequivocamente autoritario, os restantes predadores não se aproximam e deixam os gigantes (as vezes em números de 5 ou 6 em simultaneo) em paz com a sua descoberta. Vão seguir-se as Skuas e finalmente os Sheathbill, e é esta a ordem de predação na ilha.
Quando os incidentes acontecem na água, e enquanto as focas leopardo se alimentam, são os mais pequenos que aparecem – os Wilson Storm Pettrel. Corajosos, barulhentos e evasivos, quando vejo um bando no mar já sei que as focas andam por perto. Oportunistas natos, pequenos e castanhos, é impossível resistir-lhes. Procurar e seguir a passarada passa a ser uma actividade diária.
Ao fim de 5 meses, novamente num navio, subo ao deck mais alto e fico à popa, à espera de ver o esquivo albatroz. O Drake está mais revolto desta vez, é mais difícil estar lá fora, em pé, ao frio, mas enquanto conseguir, vou ficar ali, de olhos no mar. E quando voltar a terra, quero ver os Cormorant (da família dos Blue Eyed Shags), encontrar faisões distraidos, aves de rapina e, transformado em amante de passaros, quero sobretudo ver as andorinhas que trazem a primavera.