Vento e roupa a mais

Quase um mês depois de ter saído da ilha, dou por mim a revisitar aquele pequeno lugar quase diariamente. Agora que já encontrei dias com sol que aquece e queima, e que começo a perder o tom branco de falta de sol que carreguei durante quatro meses, dou por mim a revisitar a ilha através das previsões meteorológicas. Como estará o tempo por lá? Agora que os pinguins partiram para o Inverno e que as focas nadam para mais longe perseguindo “alimento”, que tempo fará na ilha?

Recordo os dias em que visitas de navios eram canceladas, dias antecipados pela chegada de veleiros que procuravam abrigo entre a ilha e o glaciar. Nesses dias de vento forte e gelado, o mar virava depressa e as ondas cresciam. Escolhia literalmente um ponto de vista – uma praia ou encosta protegida do vento, de onde pudesse observar e sentir este espetáculo natural.

O vento era limpo, pouco mudava de direcção - um vento forte, gelado e fiel. Um vento confiável. O mar por seu lado parecia libertar energia acumulada há semanas, largando ondas em todas as direcções, imprevisível, inesperadamente largando água onde ainda não tinha ameaçado sequer chegar.

Reagindo ao vento forte e fiel, alguns pinguins ficam em terra. Deitados todos na mesma direcção, apontando a sotavento e semicerrando os olhos, parecem finalmente coreografados. Todos reagem da mesma forma, procurando a posição que mais protecção oferece – melhor que ninguém sabem que também esta tempestade passará, e dará lugar a dias frescos de ventos amenos e mares calmos. Os mais corajosos saem para o mar, mergulham e combatem as ondas, e chegados a terra combatem o vento de barlavento até chegarem a suas casas. Fico a pensar que a energia que acumularam na água, onde se alimentaram, vai rapidamente gastar-se nesta luta contra os elementos. Serão os mais velhos e sábios aqueles que ficam em terra, pois sabem que a tempestade tem de passar? Na minha cabeça são os mais novos e espontâneos que saem. Não podem resistir a mais uma refeição, estão sempre com fome, como crianças à hora do lanche.

Sentado na minha rocha protegida do vento, com gorro e capuz, camadas de lã de merino e roupa impermeável (conto 3 camadas abaixo e 6 acima), desisto de limpar a lente da câmara e de tirar fotos. Tira luva, tira óculos, voa a luva, caem os óculos, levanta-se o capuz que o vento não desiste, o gorro fica torto e tapa os olhos. Desisto. Os pinguins de terra, velhos e sábios, não conseguindo rir, parecem saber que também este humano passará, levando consigo todas as camadas de roupa, fotos e gorros de lã e, desta vez, no lugar de fotografias, simplesmente memórias.

NOTA: no dia de publicação, estão -2oC. O vento de 19 nós (35km/h) faz parecer que estão -10 oC. Parece que o inverno tarda a chegar este ano!

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