Há alguns sítios no mundo que fazem parte da minha lista de lugares de fascínio. O estreito de Magalhães, o cabo da Boa Esperança, o cabo Horn, a passagem Nordeste, o estreito Beagle…a lista é grande e não pára de aumentar. Os nomes destes sítios desafiam a imaginação - com águas tumultuosas, confluência de oceanos ou simplesmente efeitos climáticos imprevisíveis, invejo a coragem de quem por lá navega, atrevendo-se a desafiar os elementos.

A passagem de Drake fazia parte dessa lista. A confluência do Oceano Atlântico com o Pacifico, a linha que separa o Oceano Antártico marcada por descida de temperaturas quase imediatas, a linha de convergência imaginaria com 20 milhas de largura, frequentemente carregada de humidade e nevoeiro.

O nome e do Inglês Sir Francis Drake, que por 1578 atravessou o Estreito de Magalhães, sendo o primeiro Britânico a faze-lo. Ao perder parte da frota numa tempestade, Drake deduziu a existência de uma massa de agua de tamanho considerável. James Cook tentou descobrir o continente cerca de 200 anos mais tarde, tendo conseguido circum-navegar o sétimo continente sem nunca o avistar. A Antártida parecia negar acesso ao Império Britânico, frustrando expedições ate ao seculo XX, incluindo as de Scott e Shackleton.

Quando em Outubro parti para Sul, foi com a noite a cair no canal de Beagle que cheguei ao mar aberto (Atlântico). Da minha pequena cabine, com as luzes apagadas, conseguia ver a terra a afastar-se naquela que seria o ultimo céu escuro por algum tempo. No dia seguinte, em pleno Drake, as ondas eram vagas, compridas e almofadadas, fazendo o navio dançar sem sobressalto. O chamado ”Drake Lake”.

No caminho de regresso as ondas cresceram depressa, logo à saída de Deception Island onde pela última vez pisámos terra. Antevendo um “Drake Shake”, a equipa de bordo põe em pratica algumas acções de segurança. Os decks mais acima ficam encerrados. Algumas mobílias são presas ou afastadas. Cada vez há menos gente no bar e restaurantes. O mar esta incrível, revolto, com ondas que não têm fim. O nosso navio pesado enfrenta o mar como pode, fugindo ao olho da tempestade, quase como um veleiro numa bolina em constante mudança de bordo.

Longe do comforto da minha cabine, amigos novos atravessam estas aguas em veleiros pequenos. Sem estabilizadores, buffets ou mobília para prender, em alguns destes barcos (Barc Europa https://www.barkeuropa.com/en) são os passageiros que navegam – içam as velas, prendem cabos, soltam amarras, caem no chão e levantam-se para continuar. Foi numa visita ao Barc Europa uns meses antes que conheci a Lisa Blair – recordista de circum-navegação do continente, em vela, sem apoio, em solitário. Também ela teve que lidar com as ondas e a indisposição (e um mastro partido!) para passar de um sitio para o outro. Nos anos 80 o brasileiro Amyr Klink fez o mesmo, em sentido contrario, sozinho e sem GPS, Internet e comunicação por satélite – relatado de forma brilhante em livro (Mar sem Fim).

O Drake continua revolto ate chegarmos perto de terra, mas os decks estão abertos outra vez, as palestras de ciência foram retomadas e os estômagos apaziguados com o movimento do navio. Avistamos terra e em breve estaremos em casa. O Drake não falhou na promessa, foi emocionante e memorável. Agradeço-lhe a passagem e olho para trás, pela popa enorme do navio, para 600 milhas de água que protegem a última fronteira.

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