Pessoas

Os encontros na ilha com a vida selvagem local, residente e visitante são marcantes para mim – guardo especial memória das primeiras vezes que encontrei focas de Weddell na ilha aqui ao lado, das baleias no horizonte e das que visitam mais perto, e claro de todas as interações com aves e pinguins. São encontros tão fortes que quase esqueço outros – com humanos. Se a Antártida é um deserto, feito de rocha, gelo, vento e frio, estes primeiros três meses são um tesouro de memorias e encontros inesqueciveis.

- Velejadores: chegam dos quatro cantos do mundo, em barcos de variado tamanho e comforto. As tripulações e passageiros são invariavelmente práticos , interessados, e com histórias surpreendentes. Desde circum-navegadores a meio de uma aventura a grupos de amigos que viajam desde Ushuaia, recordo os mergulhadores (free divers) a bordo de um veleiro francês - viajo com eles nas fotografias e vídeos que partilham comigo, espero um dia revê-los em qualquer parte. Recordo os argentinos que me convidaram para um Assado a bordo, e que oferecem o espaço limitado do seu barco sem hesitação.

- Cientistas e Activistas: que chegam à procura de abrigo, escapando a ventos e correntes fortes que se avizinham, sabendo qu a ilha oferece uma baía rodeada por Glaciares protegida das correntes fortes do canal Neumayer (a Oeste). Chegam e ficam e visitam e lembram-me que é aqui, na Antártida, que o planeta aquece mais depressa. Conheço ativistas e cientistas cujo trabalho merece reflexão – análise de salinidade e temperatura em diferentes alturas da coluna de água, estudos que permitem concluir sobre o futuro do krill, base do ciclo da vida nestas latitudes e, consequentemente, de todas as espécies que por cá vivem.

- Turistas: visitam a ilha em grupos pequenos, muitos preenchendo o sonho de uma vida. Agradecem o nosso trabalho, o acesso e o sorriso com que são recebidos. Ajudam-me a sentir afortunado por poder passar tanto tempo num sítio especial, tocando um continente incrível, e vendo mudanças diárias numa estação tão remota.

- Portugueses e Brasileiros: turistas, membros de equipas de expedição, oficiais, cadetes, directores de cruzeiro – em encontros casuais, denunciados por um nome num crachá ou por palavras trocadas entre eles e ouvidas ao longe por mim. Sempre com um sorriso, uns sabiam que por aqui andava um português, outros ficavam espantados – todos traziam perguntas, alguns trouxeram café e vinho, todos levaram abracos.

Em vésperas de celebrar 3 meses na ilha temo ser a última vez que vejo, cheiro ou sinto certas coisas – quero continuar a experimentar tudo até ao último minuto. Sei que apesar de provavelmente não rever a maioria das pessoas que me tocaram, vou lembrar-me para sempre dos instantes em que os nossos caminhos se cruzaram.

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