Glaciares, Gelo e Frio

“Eu não vivia nesse frio!” - talvez seja o comentário que mais ouvi quando dizia a amigos que ia viajar e viver na Antártida por 5 meses. A verdade é que não é assim tão frio. Isto é, a temperatura varia entre -6º e 0º C (ás vezes até uns graus positivos), o vento faz sentir que está ainda mais frio, e estar rodeado de gelo não ajuda. Felizmente há alguns factores atenuantes na ilha…

Pequena e do tamanho de um campo de futebol, a ilha não é plana. Desde que saio de casa até chegar ao meu destino (beira de água, edificios, colónia de pinguins) o caminho é sempre a descer. Rochas escarpadas, afiadas e gastas são o nosso caminho para baixo e, inevitavelmente, o caminho de regresso a casa. Esquecermos qualquer coisa, o rádio, os óculos ou uma luva implica uma escalada de regresso à base.

A previsão meteriologica ajuda-me a decidir o que vestir. Obrigatoriamente 2 pares de calças (um de trabalho e um impermeável), um polo/t shirt, uma camisola e um casaco (shell jacket). Nos dias com vento um par de calças interiores, de lã de merino, e uma camisola interior do mesmo material – a lã de merino aquece e não absorve cheiros (uma vantagem quando o próximo banho pode estar a 6 dias de distância). Nos dias de neve um casaco impermeável fecha o conjunto, 3 acima, 3 abaixo. Um gorro, luvas e um necker (tubo a volta do pescoço) fecham a idumentária. Rapidamente este conjunto é roupa a mais – se o dia é passado a transportar caixas do armazém para o edifício principal, ou a trabalhar no exterior, percorrendo escarpas, subidas e descidas.

Nos dias em que o Sol nos visita, rapidamente posso abandonar camadas, mas não posso esquecer os óculos (categoria 4, que a luz refletida no branco dos Glaciares queima a vista bem depressa).

Em barcos, mesmo em lanchas insufláveis relativamente lentas, o vento faz multiplicar o frio – aqui os óculos evitam as lágrimas, e os fatos de flutuação evitam todas as camadas de roupa com exceção de polo, camisola e calças.

Os glaciares que nos rodeiam contam milhões de anos de água acumulada, com uma superfície esculpida pelo vento e fendas que se alastram quase diariamente, especialmente em dias de sol. À medida que as fendas crescem a gravidade encarrega-se de fazer cair fatias de glaciar, grandes e pequenos blocos de gelo que se partem na água, e que flutuarao pelos próximos dias, ao sabor da corrente, enchendo a baía de um som efervescente, enquanto a água salgada derrete crepitando o gelo milenar.

Os sons e as imagens que o frio, o gelo e os glaciares nos oferecem são impossíveis de descrever por palavras, e de transmitir na mesma medida em que nos afectam. Não é o espectáculo de incrível beleza natural, não é a cor e o frio, não são as mudanças diárias de paisagem – é tudo isto e muito mais - é sobretudo a sensação de estarmos num sítio impossível , inacreditável e irrepetivel de tão único que é.

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