Pinguins (1)

O ar é seco, a rocha negra é crua e árida, o gelo glaciar esconde o continente, fazendo parecer que tudo à nossa volta é gelo. À medida que o verão avança, fendas no gelo glacial crescem, inevitavelmente fazendo com que avalanches estrondosas aterrem na água. Algumas provocam ondas, todas ecoam na baía. A corrente arrasta o gelo durante as próximas horas, icebergues, gelo partido, resíduos de milhões de anos.

Enquanto tudo isto acontece, colónias de pinguins prosseguem na sua estadia de verão na ilha. Os Gentoo, meus vizinhos desde Novembro, regressam de um inverno na água para um verão de enorme actividade. Construir ninhos, usando pequenas pedras, ninhos perfeitos onde, um de cada vez, o casal descansa garantindo que a titularidade está assegurada. O macho recolhe pedras, das redondezas, de longe e de perto, do ninho do lado ou da outra ponta da ilha. Mais tarde chegam os ovos - um, dois ou três por casal, que de então até saírem da ilha no inverno vão trabalhar juntos, por turnos, cerimoniosamente rendendo a proteção dos ovos uma ou mais vezes por dia.

Enquanto isso os predadores locais (a foca Leopardo, as Skua, os Sheathbill e os Giant Pettrel) todos começam lentamente a aparecer. As aves ocupam-se com os seus ninhos e também com o dinamismo da colónia de pinguins. Os primeiros sinais de que há ovos veem dos Sheethbill, que se começam a aproximar dos ninhos, fazendo soar o alarme – os grunhidos dos pinguins ecoam agora por toda a ilha, e pelo resto da estacão, serão o som predominante.

Um som parecido, mais um zurro do que um grunhido, é o grito de chamada usado para atrair o parceiro. Chamam um pelo outro, de uma ponta da ilha para o ninho – e quando se encontram, depois de uma vénia cerimoniosa, trocam de posição. O que chega, reluzente e brilhante da água salgada que molha as penas, troca com o que descansa no ninho, esfomeado e sujo.  

Arrastam-se para a beira de água por canais – enquanto houver gelo há um caminho a percorrer, uma auto estrada escolhida por todos os pinguins para chegar da sua colónia ao destino diário – uma refeição, prolongada, à procura da qual nadam a mais de 60km/h, saltando fora de água, voando – depois de horas deitados nas rochas, cuidadosamente aconchegando os seus ovos, uma liberdade aproveitada ao máximo. Antes de entrarem na água esperam uns pelos outros. Pequenos grupos vão-se formando em cada rocha, tal como quando se molharam pela primeira vez, os pinguins precisam de um incentivo, um corajoso que se atire, ao qual se seguirão todos os outros – assim seguem em grupo (uma jangada ou balsa de pinguins). Deste grupo fazem parte ladrões de pedras, cobiçadores de ninhos, inimigos de nascença, vizinhos e desconhecidos. Naquele momento, na reunião à beira de agua, são todos iguais – tal como quando se lançam pela primeira vez – num coletivo carinhosamente conhecido por Creche, Bando ou Colonia.

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