Mapas e Cartas
Lojas de mapas, tal como alfarrabistas, sempre me fascinaram. Adoro entrar nestas cápsulas de tempo, muitas vezes tao antigas quanto os livros e tesouros que guardam. Adoro imaginar como será trabalhar num destes sítios, lendo os livros, percorrendo com os dedos cada mapa, recusando vender os artigos mais interessantes. Sem internet, com um telefone de disco, rodeado de recibos e papéis antigos, ignorados, amarelados e esquecidos, vestígios de uma vida que se vive ao ritmo dos dias. Um sofá de orelhas, cadeirão, com uma manta no braço, em camurça coçada por horas de uso.
E como tal, tenho alguns mapas em casa, uns antigos, outros mais modernos, e antes de vir para esta ilha, muito antes de embarcar, tinha já um conjunto de mapas da Antártida, e procurava descobrir cada recanto, tentando adivinhar o meu percurso, o trajecto a partir de Ushuaia. Descobri depois outros mapas, os primeiros desenhados pela grande Expedição Francesa em 1903, de onde surgiram as primeiras cartas náuticas. Depois alguns mapas, feitos a mão, mais desenhos que mapas, com indicações de locais específicos onde se encontram ossos de baleia ou onde foram encontrados vestígios de presença humana.
Encontrei ao longo destes 2 meses de refugio mapas e cartas datadas de 1940 ate aos nossos dias. Todos diferentes, todos interessantes, mas como em tudo, tenho um preferido - uma carta de Graham Land (Anvers Island to Renaud Island). Mostra os canais que percorrem a base das montanhas, as linhas de batimetria, elevação e profundidade. E mostra os locais, portos e pequenos promontórios, penínsulas a que foram atribuídos nomes. Os nomes dos financeiros que pagaram as viagens exploratórias, ou do mecânico que reparou o navio, assegurando que a viagem poderia prosseguir. E sobretudo, a principal razão pela qual este mapa e o meu preferido – contem a mesma referencia repetidas vezes – “unsurveyed”. Estas zonas que escapam ainda a viagens de reconhecimento, que ninguém conhece completamente, e que ficam ainda, por enquanto, por descobrir.