Sempre dia

As diferenças entre casa (Europa) e a minha casa adoptiva em Goudier Island não podiam ser maiores. Nesta altura em Inglaterra temos poucas horas de Sol - talvez 7 ou 8 horas de luz solar, normalmente ofuscada por nuvens e com a permanente ameaça de chuva. Aqui tenho 24 horas de luz, de constante claridade. A qualquer hora do dia ou da noite consigo ver perfeitamente lá fora. A diferença entre 8 da manha e meia noite é mínima.

Não me fazem falta a noite ou a escuridão, mas o aviso de que o dia chegou ao fim, afirmado pelo lusco fusco, pelo pôr do sol e pelo começo da noite, esse sim, esse sinal diário faz falta. A imensidão branca que me rodeia, com glaciares a Oeste, Este e Norte, montanhas a Sul (Mount Luigi), o gelo acumulado ao longo de milhares de anos, faz com que a luz seja ainda mais clara, mais branca. Os pinguins que nos rodeiam fazem a vida de noite e de dia, em permanente rotação – não precisam de relógios ou alarmes. Os sons que fazem, seja a afugentar um predador, seja a chamar o parceiro, acompanham as 24 horas de sol, e não cessam em momento algum. Os glaciares mudam diariamente – novas fendas emergem à medida que o verão traz temperaturas mais amenas, e parecendo suspensas, enormes fatias de gelo caem no mar, provocando ondas e deixando um rasto de gelo (brash ice) que a maré e a corrente vão levar para longe. O som do desmoronar destes glaciares é comparável a uma trovoada – o som viaja mais tarde do que a queda, conseguimos ver o gelo a cair antes do som inconfundível.

A ilha vive imersa em luz e som – nunca interrompidos. Os nossos dias são frequentemente prolongados pela ausência de noite, de escuridão e por do sol. Os sons que estranhei inicialmente e que me acordavam nas primeiras noites, são agora o embalo na hora de dormir. 2 meses depois de ter chegado, os novos sons e a nova luz são parte do meu habitat – e a adaptação está completa.

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