Episódios.
Inevitavelmente, ao longo de quase 5 meses num ambiente tao especial, com relativamente poucos visitantes, estabelecemos contacto com os principais actores. O pessoal de bordo dos navios, marinheiros e, em especial, as equipas de expedição. São eles que nos alertam através rádio VHF de visitas iminentes. São eles que nos acompanham no trajeto entre a ilha e o navio, quando fazemos visitas a bordo para uma apresentação ou mesmo para passar o dia com os passageiros, trazendo a eles a loja e o posto de correios.
Foi a bordo de um insuflável, acompanhado de dois elementos da equipa de expedição, que fiquei a saber que os passageiros do navio ao qual me dirigia eram um grupo diferente. Que não esperasse muita gente na apresentação, já que parecia que o grupo preferia as noites e usava as manhãs para descansar. O grupo dos cogumelos, “the mushroom cruise” como ficou conhecido, transportava um grupo de curiosos, médicos e curandeiros que aproveitaram o cruzeiro para se conhecerm, e também para descobrir em primeira mao os efeitos de cogumelos de diferentes proveniência, nome, tamanho cor e, sobretudo, nìvel na escala dos alucinogénios. Mais do que tardios, os passageiros eram de longe o grupo mais divertido e distraído que conheci. Ninguém apareceu na loja improvisada, ou na apresentação na sala de expedições. De repente todos chegaram querendo postais e selos até que alguem gritou “vamos dançar para o deck superior” e, tão rapidamente quanto tinham chegado, todos desapareceram. Ficou para trás o pianista curandeiro, um médico de camisa havaiana que estava a aprender a tocar piano e que ficou por ali a dedilhar as teclas. Ficaram ainda sacos de cogumelos, amostras junto a máquina do café, para que nenhum curioso perdesse a oportunidade de experimentar os prazeres curativos de um chá.
Depois de semanas na ilha, descobri que havia um cruzeiro português, do Mário Ferreira. Conhecia o nome, Mário Ferreira era o português da Douro Azul que ia ao espaço, ou que tinha ido ao espaço, mas não fazia ideia que tinha uma companhia de navegação com um dos mais confortáveis navios em que entrei – fiz amigos no World Navigator. Passei a fazer todas as apresentações abordo, e a aproveitar as ofertas da equipa para tomar um chuveiro e café verdadeiro. Foi neste navio que bebi a primeira cerveja gelada em muito tempo – e para que soubesse ainda melhor, foi Super Bock de pressão, no bar, com vista para a ilha, antes de um opíparo jantar abordo.
Pouco antes de partir de UK, fui entrevistado pela agência Lusa (obrigado Bruno Manteigas). A entrevista foi publicada em meios de comunicação em Portugal, RTP, SIC, CM, entre tantos outros. Fui surpreendido por mais pedidos de entrevista e eventualmente enviei noticías já a partir da ilha para a TSF, RR, Jornal de Noticias e outras publicações. Dias mais tarde, na ilha, ocupado a receber um grupo de turistas em pequenos grupos de 40 pessoas, ouço ao longe “tu és o português, o Tiago!”. “sou” respondo. Recebo um abraço e sorrisos, tiramos fotos e no fim entrega-me dois pacotes de café Delta – tinha referido numa das entrevistas que levava na bagagem café, por ser completamente viciado no espresso da manhã. Infelizmente não me lembro do nome desta nossa visiante, mas gostava que soubesse que poucos dias depois da sua visita, o café que trouxe era o único café na ilha e que foi esse café que me manteve funcional durante dias, até os amigos do World Traveller nos trazerem provisões.