Sempre tive um fascínio por barcos e água – talvez tenha sido a natação desde novo, ou as férias na praia no verão - de uma forma ou outra parece que sou mais feliz, estou mais em casa, perto de água ou de preferência, dentro dela.

Atravessar o Drake me trouxe uma enorme excitação, foi um momento que antecipei por largos meses - sempre que tive a oportunidade de andar de barco disse “sim”, aceitando qualquer proposta e satisfazendo o mais possível aquela necessidade de estar na água e, ao mesmo tempo, o prazer de navegar. Durante a faculdade, atravessar o Tejo entre Lisboa e Cacilhas acrescentava pelo menos 30 minutos à viagem diária, mas o trajecto nos velhos cacilheiros, lá fora, junto a água, nas portas laterais que se abriam para os passageiros entrarem, com o vento a soprar e, mesmo nos dias quentes, enchendo a cara de ar fresco – estavam justificados os 30 minutos de atraso.

Emoção de travessias entre Peniche e as Berlengas, sempre desconfiado do estado do mar, muitas vezes partindo sem ver as ilhas no horizonte, com a neblina da costa Oeste a esconder as ondas, sentado lá em cima, com o ar frio mesmo no verão, aquela viagem era em si uma aventura para mim. Jamais esquecerei o nome do barco, que ainda circula e no qual espero em breve reembarcar (Cabo Avelar Pessoa).

Ainda na faculdade, o dinheiro recebido no primeiro mês do estágio foi direitinho para um kayak – azul de dois tons, feito em fibra de vidro, velhinho e esmurrado, com farpas que cortavam a pele. Foi graças ao seu banco partido que aprendi a lidar com lã de vidro, resinas e epoxy, aprendendo em especial como não lidar com fibra de vidro (usar sempre óculos, mangas compridas e luvas que as farpas são como pequenos misseis que se alojam nos braços despidos). Anos mais tarde, foi em kayaks que a Raquel e eu percorremos a costa da linha de Cascais – em dois kayaks amarelos que nos levavam ao fim de semana para longe da praia da Conceição, por cujo areal arrastávamos os dois barquitos, desejosos de nos afastarmos de terra. Enfrentámos a Nortada e as correntes, usamos as bóias dos pescadores para nos segurarmos – lembramos com imensa saudade os nossos dias a pagaiar pela costa fora.

Já em Inglaterra é nos lagos perto de casa que encontro água por perto. Não há grandes viagens por aqui, mas saídas frequentes em pequenos veleiros, praticando manobras e descobrindo novas técnicas. Kayaks e SUP’s nos dias sem vento, continua a ser na agua que nos refugiamos sempre que a oportunidade aparece.

Lembro-me do nome de todos os veleiros que nos visitaram na ilha – e dos nomes dos tripulantes com quem troquei fotos, comida, vinho e mensagens. Alguns destes barcos e tripulantes têm histórias invejáveis, de verdadeira aventura. Há livros que as relatam, há vestígios da presença destes homens e mulheres em Lockroy e Damoy, filmes e documentários. Vivem também na memoria e imaginação de muitos de nós – vê-los em carne e osso é como conhecer um herói, alguém de quem ouvimos falar e que nunca sonhamos ver. Foi graças a um destes visitantes que descobri que o Brasil produziu (e ainda produz) um número incrível de exploradores modernos – admiro-lhes sobretudo a determinação, a vontade de concretizar um plano e de transformar uma ideia num projecto (ouvir o podcast maré sonora e o canal #SAL onde se encontram relatos de muitas histórias incríveis passadas na água, entrevistas e vídeo).

Agora de volta a casa percorro os álbuns de fotos e reencontro os barcos e alguns dos visitantes. Sinto saudade desses encontros que sempre acrescentaram valor aos meus dias, e das pessoas a quem acenei adeus da encosta da ilha, do cais das correntes, onde em barcos de madeira os baleeiros esquecidos atracavam. Se voltar a ilha, vai ser assim, à vela.

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