Acredito que todos temos heróis, de uma forma ou outra. Quer sejam familiares ou amigos, conhecidos ou totalmente desconhecidos, famosos ou anónimos. Alguém para quem olhamos com respeito pelo que fazem ou fizeram, que nos inspira ou nos faz ter fé, acreditar que possamos também nos seguir-lhes os passos. Pessoas que fazem coisas inimagináveis, e que se submetem a pressão e a riscos dos quais a maioria de nós fugiria sem pensar.
Numa noite sem escuridão enquanto alguém aquecia o jantar, olhava pela janela do Nissen Hut a ver os pinguins lutar contra o forte vento Oeste. De repente, no meio do nada, vejo um homem barbudo a caminhar pela neve, seguido de um outro menos barbudo que afundava as botas no gelo. Vinham do lado nascente da ilha, onde não há cais, praia ou sítio para amarrar barcos. Antes de avisar os restantes elementos da equipa, menos abertos a visitas inesperadas, vesti-me, calcei-me, e fui ao seu encontro. Vinham mesmo do Leste, russos de nacionalidade, Sul Americanos de adoção. Estavam sem motor no pequeno bote de borracha que os tinha trazido até à ilha – tinham resolvido remar até nós, mas a força da corrente e o vento acima dos 30 nós na direcção oposta teimavam em dificultar-lhes o progresso na água. Decidiram que a escalada da íngreme encosta nascente da ilha era preferível ao esforço em remar, contra vento e corrente, por cerca de 500 metros.
Conversámos até sermos interrompidos via rádio – quem são essas pessoas, porque estão aqui? Não avisaram que vinham a Port Lockroy. Não pediram licença. Conversa encurtada, pedi-lhes que regressassem de dia – que o museu estaria pronto para os receber bem cedo na manhã seguinte. Teríamos nessa noite a primeira discussão sobre a soberania de Goudier Island. A verdade é que os edifícios pertencem ao Reino Unido, é deste pais (nomeadamente do FCDO que é o ministério do estrangeiro, Commonwealth e desenvolvimento), a responsabilidade de os manter ou retirar – os edifícios. A ilha, essa pertence à humanidade porque a Antártida, tal como o tratado de 1959 estabelece, não é de ninguém.
No dia seguinte conversaria por mais tempo com estes dois navegadores – chegados num veleiro de 30 pés, depois de atravessarem o Drake até alcançarem a nossa ilha. O líder da expedição Eugeny, o homem mais barbudo, representava um grupo de espanhóis, argentinos e russos (6 pessoas no total). Em 2021, juntamente com um navegador Francês, Eugeny construiu um trimarã insuflável, usando tubos de alumínio, madeira e muitas cordas. Mais do que uma embarcação, o trimarã parecia uma jangada. A intenção era circum-navegar o planeta, honrando a história e os seus heróis russos que tinham feito semelhante viagem em 1803, com um navio muito mais bem preparado. Se fossem bem sucedidos estariam 3 anos na água. Tiveram várias paragens e sobressaltos ao longo do caminho, e eventualmente tiveram que recuperar (ou substituir) a embarcação em 3 ocasiões. Em Março de 2023, foram socorridos no meio do Oceano Pacífico. Tinham percorrido mais de 13 mil milhas e, no rescaldo de uma tempestade, perderam o leme. Sem rumo e à deriva, foi um navio de nome “Sounion” que os socorreu. A tripulação Ucraniana terá conseguido pôr de lado boas razões para não ajudar os vizinhos, e foi graças a eles que Eugeny e os companheiros puderam mais tarde continuar a viagem (por esta altura a Russia e a Ucrânia estavam em guerra há mais de um ano).
Não faço dele meu herói – mas reconheço-lhe imensa coragem e determinação. Não imagino que se lembre de mim por muito tempo, mas eu fiquei sem dúvida mais rico por ouvir a sua historia, e por aprender sobre os seus projectos – fiquei contente por lhes mostrar o museu, em especial os skis feitos de osso de baleia – fiquei feliz por lhes oferecer terra firme ainda que apenas por umas horas.
A manhã vai longa quando em Port Lockroy, desta vez no cais, aperto a mão a Eugeny. Despeço-me dele sozinho, sem colegas por perto, que a discussão da véspera não resultou em consenso – é difícil aceitar que esta rocha coberta de gelo possa simplesmente não ser de ninguém – tal como foi difícil para os marinheiros Ucranianos socorrerem Eugeny e a sua equipa em 2023.
(imagens obtidas em “https://www.giornaledellavela.com/2023/03/28/ukrainian-ship-rescues-russian-trimaran-so-the-law-of-the-sea-beats-war/?lang=en”