Tempo
Não me passa pela cabeça discutir ou argumentar contra a definição de tempo, a grandeza física reconhecida pelo Sistema Internacional de Unidades, que usamos para medir a duração e ordem dos acontecimentos. Mas durante quase 5 meses presenciei e testemunhei que há sítios em que o tempo passa de forma diferente, a um ritmo específico, com outras durações.
Teorias da relatividade à parte, tento agora encontrar uma explicação para estas diferenças de variação entre o agora em casa e o antes, na ilha.
Em Filosofia há conceitos muito atraentes que tentam explicar porque sentimos o tempo de forma diferente. Santo Agostinho dizia que medimos o tempo individualmente, com base na nossa memória e expectativa (passado e presente) – talvez isto explique porque parecem sempre mais curtas as viagens de regresso (a expectativa de regressar a um sítio que nos é familiar que nos leva a concentrar no trajecto). Filósofos gregos ignoravam o passado e o futuro - um já não existia e outro estava ainda para vir. Só o agora tinha interesse.
Vivemos rodeados de lembranças do tempo, relógios nas paredes, pulsos e ecrãs, fazendo questão de nos informarem permanentemente de quantas horas passaram e de quantos minutos faltam. A vida assim obriga, temos os dias organizados em horas e minutos, calendários e agendas, e precisamos sempre de saber o que vamos fazer quando pararmos de fazer aquilo que ainda não fizemos. Tento em vão resistir a estes controlos horários, é um esforço sobre humano e tenho dificuldade em desligar-me.
Foi no meu refúgio austral, na ilha de Bills (pequena ilha alcançável a pé apenas na maré baixa) que me apercebi que o tempo não é constante. O tempo é de facto proporcional às distracções – em progressão geométrica e elevação exponencial. Sem ecrãs, telefonemas e anúncios, sem eventos sociais ou familiares, festas, celebrações e acontecimentos, o tempo refugial era ilimitado. E as horas reais passavam indiferentes, porque não tinham nada que marcar. Com tempo ilimitado conseguia observar, ver, descobrir pormenores e aprender a ouvir – tinha tempo para esperar e ser surpreendido. Às vezes esperar sem nada descobrir, sem surpresas, mas nunca frustrado com o sentimento de tempo perdido – não se pode perder aquilo que não se tem.
2 meses depois de ter chegado a casa, a vida volta ao “normal”. Os relógios regressaram e os mini problemas estão todos no presente, o idiota que não faz sinal para mudar de faixa à nossa frente, o egoísta que deixou o carrinho do supermercado no meio do parque de estacionamento, a chuva que cai à hora do passeio do cão, as mensagens por responder, os emails por abrir. Determinado a não deixar que estes mini problemas me distraiam do mundo à nossa volta, sonho com o dia em que volto a ter tempo como antes. Em qualquer sítio, desde que tenha tempo e que não lhe ligue, tenho a certeza de que encontrarei um novo refúgio na maré baixa. Até lá vou ganhando minutos todos os dias, sempre que possível, sem adiar sonhos porque sei que um dia, inevitavelmente, já não terei mais tempo.